quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Os médicos franceses expulsam Dukan pelos riscos de sua dieta


O colegiado de médicos franceses anunciou a expulsão do nutricionista Pierre Dukan Pierre (Argélia, 1942) por fazer promoção comercial de seu regime, que, segundo eles, provoca desequilíbrios alimentícios. A decisão foi da câmara disciplinar, que na prática não tem nenhum efeito porque o próprio Dukan já tinha renunciado a participar do órgão em abril de 2012, logo após sua aposentadoria, em contra de seus colegas.
Ele conta sorridente que seus seguidores, os dukanianos, o chamam de Dudu. “Eles me veem um pouco como um pai”, diz, encolhendo os ombros. Afirma isso com o mesmo orgulho com que enumera que seus livros, nos quais fala do seu método para emagrecer, foram traduzidos para 26 línguas e têm vendas na casa dos milhões (21 já) em 56 países. Mas o personagem é polêmico. Amado e odiado provavelmente em igual medida, Dukan é um homem tranquilo. Pai de uma controvertida dieta hiperproteica baseada em cem alimentos – para comer a vontade – afirma que as críticas que o acusam de idealizar um sistema danoso para a saúde são falsas. Seus detratores, diz, são motivados por uma questão de “concorrência econômica”. “O problema é que o meu livro custa 10 euros e funciona. Estou esvaziando os consultórios de muitos nutricionistas...”. O mar de críticas, entretanto, está cada vez mais cheio. Seria Dukan uma fraude? Será que ele encarna o líder de uma seita, a dos dukanianos, que abraçam com paixão a ingestão de proteínas animais à semelhança de nossos antepassados menos evoluídos.
Diferentemente da pirâmide nutricional tradicional, o sistema que o médico francês propõe se baseia fundamentalmente na ingestão de alimentos proteicos, como carne e peixe. Esses são a chave, sobretudo, durante os primeiros dias da dieta, que ele chama de fase de ataque, tempo em que as verduras estão restritas – embora algumas possam ser incorporadas mais à frente –, e os carboidratos, terminantemente proibidos. Do açúcar refinado, nem se fala. “É um autêntico veneno”, sentencia Dukan, que visitou a Espanha em 2012 para apresentar um livro de “receitas para não se entediar”, com um método que, segundo ele, “é um estilo de vida” que inclui outras duas premissas básicas: esquecer o elevador e caminhar 20 minutos por dia. “É um sistema que é preciso seguir para sempre”, afirma.
O francês se defende: “Tudo isso é falso. Faz 40 anos que recomendo esse sistema e nunca recebi uma crítica direta de alguém que tenha tido um problema de saúde”. Dukan, que se defende alegando que muitos de seus críticos – como os nutricionistas – não são médicos de formação, assegura que sua dieta “melhora a função renal e do fígado”. Nega veementemente que seu sistema seja perigoso, e esgrime que é o mesmo que seguiam – compulsoriamente – os homens há vários séculos: carne, peixe, algumas verduras e pouquíssimas frutas. “O mundo mudou muito, mas nosso organismo continua sendo o mesmo. Por que seria ruim comer igual que os nossos ancestrais?”, frisa.Entretanto, essa proposta restritiva e baseada em proteínas – com as quais se pretende mobilizar as reservas de energia – foi duramente criticada pelos especialistas. A Agência Nacional de Segurança Sanitária na Alimentação (Anses), da França, tacha o regime de “desequilibrado”, e a Agência Espanhola de Segurança Alimentar o colocou há tempos em sua lista negra junto com outras dietas milagrosas, como a do abacaxi (baseada em comer apenas essa fruta e um pouco de peru). Giussepe Russolillo, presidente da Associação Espanhola de Dietistas e Nutricionistas, que elaborou para o Ministério da Saúde um relatório sobre esse método de emagrecimento, acredita que se trata simplesmente de “uma fraude”. “É uma dieta muito perigosa, mantida no longo prazo traz grandes riscos para a saúde. Embora em curto prazo possa provocar mais perda de peso do que uma dieta equilibrada, em longo prazo não há diferenças. E não é só isso, depois de revisar muitos estudos científicos fica claro que as dietas hiperproteicas como essa aumentam o risco de doenças cardiovasculares. Poderia, inclusive, causar danos renais em longo prazo”, argumenta Russolillo.
Os argumentos de Dukan não convencem muitos de seus colegas. Mar Garrido, médica endocrinologista e membro da Sociedade Espanhola para o Estudo da Obesidade (Seedo), considera que “as dietas que limitam o consumo de carboidratos e que restringem a ingestão de muitos outros alimentos não são saudáveis. São muito perigosas porque podem provocar carências graves no organismo”, afirma.
Para María Victoria Martín, nutricionista da Clínica Menorca, em Madri, o método traz riscos gravíssimos para a saúde e um problema extra: embora grande parte do sistema se baseie no auxílio aos seguidores via internet, trata-se de conselhos propostos por um livro. “Uma dieta proteica têm que ser feita sob controle médico, pois a restrição de alimentos deve ser suprida com suplementos alimentícios, e as proteínas devem ser de alto valor biológico para evitar carências nutricionais e outros riscos”, alerta.O modelo Dukan propõe que as proteínas, nas fases iniciais, respondam por 75% das calorias ingeridas. “Normalmente são 15% das calorias consumidas diariamente, e se aceita que cheguem a 35% numa alimentação saudável. O método Dukan supera isso de longe”, analisa Susana Monereo, chefa da Unidade de Endocrinologia e Nutrição do Hospital de Getafe. “É uma dieta hiperproteica pura, com uma carência brutal de outros tipos de nutrientes: vitaminas, minerais, fibra, carboidratos”, explica. Monereo destaca que, embora o sistema de Pierre Dukan divulgue que as proteínas provêm do peixe e outros alimentos, a prática clínica lhe mostrou que a maioria dos dukanianos se limita à carne. “E essa tem uma enorme quantidade de gorduras saturadas e provoca falta de cálcio, coisa que em longo prazo pode causar osteoporose. Além dos problemas renais”, acrescenta.
Em resumo: problemas cardiovasculares, danos renais, dificuldades no trânsito intestinal, carência de vitaminas, perda de cálcio e, portanto, osteoporose, dores musculares... Se os alertas são tão claros, por que o número de dukanianos – ou dukanettes – não para de aumentar? “O meu método funciona, essa é a única verdade”, diz seu criador. “Com ele é possível perder peso e levar uma vida saudável. Serviu para muitas pessoas que não conseguiam emagrecer de outra forma. E o sobrepeso e a obesidade provocam doenças sobrevenientes, como o diabetes e inclusive o câncer”, defende. E explica que assim a idealizou, há 40 anos, a pedido de um paciente que já tinha tentado de tudo e chegou ao seu consultório impondo uma só condição: que não o privasse de comer carne.
Além disso, não há nenhum estudo clínico que avalie a dieta Dukan nem que seus efeitos sejam, como ele defende, inócuos ou inclusive benéficos. Mas estudos que mostram os efeitos do método existem. Duas pesquisas das revistas Santé-Médecine e Journal de Femme, que ouviu 5.000 pessoas que seguiram a dieta, mostram que 80% recuperam seu peso inicial em quatro anos, 35% recupera nos primeiros meses, e 64% leva apenas dois meses. As cifras da Anses são ainda mais demolidoras: 80% das pessoas que seguiram a dieta recuperaram seu peso durante os primeiros 12 meses do regime.Como aquele primeiro dukanianocarnívoro, a maioria das pessoas que seguiram a dieta do médico francês perdeu peso (bastante, de fato) nas fases iniciais. Além disso, o efeito saciador das proteínas reduz o apetite – embora alguns sonhem, literalmente, com uma simples acelga refogada ou uma maçã –, mas em longo prazo é praticamente intolerável. Tanto física como mentalmente. “No consultório, vemos que, quando a motivação para a dieta se reduz, a restrição de carboidratos provoca nos pacientes enormes transtornos de ansiedade por comer alimentos ricos em hidratos, o que acaba em compulsão. Com isso, o preço que se paga é muito alto: se recupera o peso perdido e já não se livra dessa ansiedade”, alerta Monereo.
Esses dados, entretanto, não convencem Pierre Dukan, que fez seu próprio estudo sobre o chamado efeito-sanfona através do seu site, com as respostas dos seus seguidores. Suas cifras, evidentemente, são bastante mais frouxas do que as da Anses. Apesar de tudo, o francês admite uma margem de fracasso. “Meu método não é um milagre!”, diz. “Como todas as dietas, há um percentual de pessoas que ganham alguns quilos, mas isso pode ser evitado seguindo-se as pautas”, continua. Ele explica que no coaching que faz com seus seguidores através da internet há modelos para dar resposta a todas as opções. “Ganhou um par de quilos? Não tem problema, lhe damos receitas novas e conselhos para perdê-los. E lhe damos apoio, enviamos e-mails. Se os quilos recuperados são muitos e a situação não melhora, telefonamos. Há uma resposta para cada situação.” Dukan afirma que a luta contra o sobrepeso é uma “guerra” que não pode arrefecer. “Ele sempre está ali na esquina preparado para voltar. Se você se divorcia, se o seu filho repete o ano... Um momento de fraqueza e...”, alerta ele, balançando a cabeça.
Compensa viver assim, restringindo alimentos, pensando que se está numa batalha constante contra a balança? Certamente essa é uma sociedade superalimentada, que mostra estímulos constantes para incitar o consumo de nutrientes bem pouco saudáveis. “Mas o que é preciso fazer é educar as pessoas para que levem uma vida saudável”, defende Mar Garrido. E, para ela, isso tem pouco a ver com o sistema Dukan. “Nos problemas de sobrepeso é preciso ver o que aconteceu até se chegar a esse ponto, analisar o problema e tratar de paliar essas situações”, afirma.
O que é inquestionável é que Dukan conseguiu erguer um poderoso império sobre uma das torturas do século XX e XXI, o sobrepeso e o desejo de perdê-lo. Porque, além de seus livros, o mundo Dukan se congrega em torno do seu site, onde, além de oferecer apoio e conselho aos seus seguidores – em 2008 foram 200.000 usuários – por cerca de 13 reais por mês, vende os produtos com seu selo e aprovação. Desde vitaminas até o alimento-base da sua dieta, o farelo de aveia; um alimento que o líder dos dukanianos define como “maravilhoso”. “Proporciona sensação de saciedade e também mobiliza o intestino e ajuda a eliminar calorias através da matéria fecal”, explica. Conclusão: todos consumindo farelo de aveia. Tanto que o produto já começa a faltar nas lojas. Coisa que também poderia começar a ocorrer com seu novo alimento de cabeceira, os macarrões Kojca.
Susana Moreneo acha que “Dukan usa como base a obsessão da própria sociedade pelo imediatismo”. “Queremos tudo já e sem nenhum esforço”, frisa. “E isso é impossível.” “Ele explora também os modelos da eterna juventude e magreza. É surpreendente a quantidade de gente formada que faz essa dieta: políticos, artistas, intelectuais.”Dukan, que se sofrer sanções pode inclusive perder o seu registro profissional, sorri e dá de ombros. “Em primeiro lugar, já estou aposentado... Eu tenho 70 anos! E, segundo, não é o dinheiro que me importa. Sim, eu ganho dinheiro – embora o investimento, por exemplo, no meu site seja tremendo – mas todos ganhamos”, garante. Ele diz que começou a vender produtos porque recebia pedidos de pessoas que não os encontravam nos locais onde moravam.
De fato, muitos rostos conhecidos são ou foram dukanianos. Por exemplo, François Hollande, o presidente da França. “Recuperou um pouco de peso [depois de ser eleito], mas é normal com o estresse da campanha”, garante Dukan. “Antes o chamavam pudim mole”, brinca sua assistente. Por que essa dieta seduziu mais gente que tem acesso à informação? É uma dieta fácil, pode ser feita sem problemas em restaurantes. “Alguns acham que ficam melhor pedindo uma boa chuleta do que um caldo e algumas verduras na chapa. [...] Ele toca em questões que não têm a ver com a alimentação, mas com a posição social. [...] É grave porque ninguém questiona que possa ter consequências”, diz a chefa da Endocrinologia e Nutrição do Hospital de Getafe.
“Quando, com o passar dos anos, comecem a chegar aos nossos consultórios pessoas com problemas cardiovasculares, de osteoporose, de gota... Provavelmente não lembram que fizeram durante uns meses, um ano, a dieta Dukan; mas as sementes, a herança que ela lhes deixou estará ali”, observa Monereo. O médico francês não se importa de que seu método e tudo o que criou ao seu redor estejam associado a uma seita. “Quando muitas pessoas têm algo em comum tendem a se unir. Falam em fóruns da internet, se reúnem na mesma cidade”, diz. “Líder de uma seita? Não, pelo amor de Deus. Eu me dedico a ajudar as pessoas. Às vezes me vejo como... como um Robin Hood!”, diz.

Fonte: Jornal El País

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