quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Explosão no número de obesos ameaça sistemas de saúde de países emergentes


É uma doença que vai custar cada vez mais caro à economia mundial. Mais de um em cada três adultos no mundo sofre de obesidade ou de sobrepeso, ou seja, 1,46 bilhão de pessoas. Em menos de trinta anos, entre 1980 e 2008, o número dessas pessoas quase que quadruplicou nos países em desenvolvimento, passando de 250 milhões para 940 milhões. No mesmo período, o número aumentou 1,7 vezes nos países de rendas mais elevadas.

Ao publicar, no dia 3 de janeiro, um relatório dedicado aos problemas da alimentação, o The Overseas Development Institute (ODI), um círculo de reflexão britânico sobre o desenvolvimento e as soluções humanitárias, enfatiza a explosão no número de obesos nos países emergentes. "O que mudou foi que a maioria das pessoas com sobrepeso ou obesas hoje se encontram nos países em desenvolvimento, no lugar dos países desenvolvidos", explicam os autores do relatório, Sharada Keats e Steve Wiggins, dois pesquisadores especializados em agricultura.

Inúmeros fatores explicam essa mudança. A "transição nutricional", ou seja, a mudança de comportamento e da alimentação se deu rapidamente. "Mais densidade calórica e energética, mais gordura e açúcar, o aumento do tamanho das porções, uma alimentação mais acessível e disponível, a perda dos modelos culturais tradicionais são todos fatores que caracterizam essa transição nutricional", analisa o professor Arnaud Basdevant, do serviço de nutrição no Hospital de Pitié-Salpêtrière. As migrações para as cidades, a sedentarização com mobilidade reduzida, os poluentes urbanos agravaram o fenômeno.

As consequências esperadas para a saúde são alarmantes. "Em todo o mundo vamos assistir a um grande aumento no número de pessoas que sofrem de determinados tipos de câncer, de diabetes, de acidentes vasculares cerebrais e de crises cardíacas, criando um pesado fardo sobre os sistemas de saúde pública", alerta Wiggins.

Para Arnaud Basdevant, "a epidemia de diabetes pela qual podemos esperar será praticamente insustentável financeiramente para esses países emergentes". Na escala da China, da Índia, do Brasil, do México... são milhões de pessoas que necessitarão de grandes cuidados. "Não será algo imediato, é preciso que as populações em questão tenham tempo de ganhar peso, passem para o sobrepeso e depois atinjam a obesidade até a obesidade crônica", detalha o professor. "Mas, daqui a quinze ou vinte anos, esses custos serão consideráveis."

Segundo diferentes estudos, a obesidade representaria entre 2% e 5% dos gastos com saúde nos países industrializados. Na Europa, a Comissão Europeia havia calculado esse montante em 7% dos gastos com saúde pública: "Um número que continuará a aumentar diante da tendência crescente da obesidade", afirmou a Comissão no final de 2005. Na França, em um estudo publicado no "La Presse Médicale" em 2007, a soma variava entre 2,6 e 5,1 bilhões de euros (R$ 8,4 a R$16,5 bilhões), mais de 6 bilhões se forem levados em conta os custos das interrupções no trabalho associadas a essa patologia.

Em seu relatório "A obesidade e a economia da prevenção" (2010), Franco Sassi, economista da saúde na Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos, observou que "uma pessoa obesa gera gastos com saúde 25% maiores do que uma pessoa de peso normal". Sassi apontava para o fato de que os mais afetados eram as pessoas mais vulneráveis do ponto de vista social e econômico: "Os indivíduos obesos ganham até 18% a menos que os não-obesos".

Nos países emergentes, as pessoas mais expostas aos riscos da obesidade em muitos casos foram afetadas primeiro pela desnutrição. "As crianças cuja mãe sofreu desnutrição ou que elas mesmas a tenham vivido se tornam obesas ou diabéticas com mais facilidade; isso foi constatado na Índia", explica o professor Basdevant. "Quanto mais rápidas são as mudanças de comportamento alimentar, mais rapidamente a obesidade se instala". É uma forma de dupla punição. "Nos países da América do Sul, observa-se a coexistência, em uma mesma região, uma mesma cidade ou até mesmo uma mesma família, de casos de desnutrição e de sobrepeso", ele diz.

A obesidade não é mais um problema de responsabilidade individual. "Em geral, e particularmente nesses países, o combate não se dá no nível do indivíduo, pois se trata de uma doença crônica, associada à evolução dos modos de vida e do meio ambiente", analisa Basdevant. "Cabe aos governos pensar as políticas de saúde e de nutrição, tanto nas escolas como nas empresas, mas também as políticas urbanas e de transporte."

O relatório da ODI insiste na insuficiência de políticas públicas para o combate à obesidade. "Os dirigentes devem ser menos temerosos em suas tentativas de influenciar o tipo de alimentação que vai parar em nossos pratos", afirma Steve Wiggins. Nestes tempos de globalização que uniformiza os costumes alimentares, os dois autores também ressaltam a responsabilidade dos mercados e dos preços agrícolas. Essa constatação foi feita pelo Banco Mundial, que observa que "com a persistência dos altos preços dos alimentos e provavelmente cada vez mais instáveis, as calorias ruins tendem a custar mais barato que as boas."


Fonte: UOL/Le Monde

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