segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Obesidade infantil, como tratar?



A obesidade é relatada em monografias desde o século XVII. Trata-se de uma doença caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, que produz efeitos deletérios à saúde. Há um consenso na literatura de que sua etiologia é multifatorial, envolvendo aspectos biológicos, históricos, ecológicos, políticos, socioeconômicos, psicossociais e culturais. Além disso, fatores genéticos têm ação permissiva para que os fatores ambientais possam atuar, como se criassem “ambiente interno” favorável à produção do ganho excessivo de peso.
Uma criança tem 80% de chance de ser obesa quando pai e mãe são obesos, e 40% quando um dos dois é portador do distúrbio. Já quando nenhum dos genitores apresenta o distúrbio, a chance cai para 7%.
A obesidade é um problema crescente, sem discriminação de faixa etária, sendo encarada como epidemia e uma das mais importantes desordens nutricionais tanto em países desenvolvidos quanto nas nações em desenvolvimento. Nos últimos anos,  inclusive, tem-se observado o aumento de sua prevalência em crianças e adolescentes em diversos países.
O mundo atual tem oferecido uma série de opções que podem ser consideradas facilitadores desse resultado: alimentos industrializados, ricos em gordura e com alto valor calórico, fast-food, televisão, videogames, computadores, entre outros, somados ao sedentarismo, podem constituir um ambiente bastante favorável ao aumento da prevalência da obesidade.
Estudos científicos mostraram que 50% das crianças obesas aos seis meses de idade e 80% das crianças obesas aos cinco anos de idade tendem a tornar-se adultos obesos. Evidências científicas têm revelado que a aterosclerose e a hipertensão arterial são processos patológicos iniciados na infância,  quando são formados os hábitos alimentares e de atividade física.
A obesidade infantil não traz somente danos metabólicos, o excesso de peso na infância e adolescência pode determinar dificuldades de socialização, maior dificuldade em encontrar emprego e constituir família. 
Surge aí a grande questão: o que podemos fazer para evitar e tratar a obesidade nas nossas crianças? 
O consumo do leite materno mostrou-se um alimento protetor contra a obesidade, fenômeno esse conhecido como "imprinting" metabólico, a experiência nutricional precoce atuando em período específico do desenvolvimento, podendo gerar um efeito duradouro.
Em 2001, uma pesquisa americana avaliou 2.565 crianças com idades entre 3 e 5 anos. As que haviam recebido aleitamento materno tiveram menor prevalência de risco de sobrepeso em relação àquelas que nunca haviam sido amamentadas.
O consumo de alimentos que exijam adição de açúcar deve ser evitado nos primeiros anos de vida, fase na qual a criança está formando seus hábitos alimentares, podendo levar a um maior consumo dessas fontes. Cautela e bom senso são necessários para a introdução de alimentos como leite achocolatado, mingau, bolacha doce e recheada, que possuem sabor agradável e, por isso, têm maior consumo, elevando o valor calórico total da dieta e o risco de sobrepeso e obesidade.
A atividade física é ponto importante no tratamento e na prevenção da obesidade infantil. Todavia, estudos indicam que a maioria dos brasileiros não tem o hábito de praticar nenhuma atividade física desportiva regular. Mais especificamente em São Paulo, outro estudo revelou que 68% da população adulta é sedentária.
O papel familiar é de extrema importância na formação e desenvolvimento físico e psicológico dessas crianças. A prática de atividade física deve ser estimulada e dividida com elas, fazendo parte da rotina da família. Nesse sentido, em consultório, pais e filhos são orientados e envolvidos no processo. Os responsáveis devem evitar a compra de salgadinhos, achocolatados prontos, bolachas recheadas, bolos industrializados, fast food, balas e doces.  No mercado sugerimos troca por opções mais saudáveis e nutritivas: refrigerante por suco, doces por frutas, cereal açucarado por integral ou sem açúcar.
O preparo dos alimentos também é levado em conta. Alimentos congelados e já prontos (almôndegas, lasanha, empanados em geral) devem ser substituídos pelos preparados de modo caseiro, com alimentos in natura. Assim os níveis de sódio, conservantes e gorduras são reduzidos. A refeição deve ser feita sempre que possível com todos os membros da família à mesa e com a televisão desligada. Videogames e TV precisam ter seus horários controlados.
A abordagem nutricional é feita de forma lúdica e ilustrativa. Utilizamos guias alimentares que são expressos na forma de arco-íris, pirâmides, roda, entre outros, contendo figuras dos grupos de alimentos em diferentes níveis, estabelecendo a quantidade de consumo.
Por exemplo, na Pirâmide Nutricional Infantil, a divisão é feita por níveis:
Nível 1: fontes de carboidratos (pães, massas, arroz, tubérculos, cereais, raízes) – base da dieta, têm liberadas 5 porções diárias, sendo que uma delas deve ser de grão integral.
Nível 2: Grupo das verduras e legumes e Grupo das frutas – fontes de vitaminas e sais minerais, com consumo de até 3 porções diárias
Nível 3: Grupo dos lácteos, leite e seus derivados, fontes de proteínas, cálcio e vitaminas, com consumo de 3 porções; Grupo das carnes (carne bovina e suína, aves, peixes e frutos do mar, vísceras) e ovos, fontes de proteínas, ferro e vitaminas permitidas 2 porções; Grupo das leguminosas (feijões em geral: feijão, soja, ervilha, grão de bico, fava e amendoim) – são fontes de proteína vegetal, com consumo de 1 porção.
Nível 4: Grupo dos óleos e gorduras e Grupo dos açúcares e doces - os alimentos desse nível devem ser consumidos com moderação. Ambos estão no topo da pirâmide e presentes na preparação e composição em todos os outros níveis, por isso, só liberados em uma porção.
O tratamento da obesidade infantil é, sem dúvida, um grande desafio. Por isso, a abordagem deve ser feita sempre de forma educativa e informativa, e não punitiva, tanto com a criança quanto com os pais. Por isso, é necessária a atuação conjunta de uma equipe multiprofissional (nutricionista, pediatra, educador físico, psicólogo) sempre motivando toda a família. Juntos, é possível!


Fonte: Simone Kikuchi é nutricionista clínica e ambulatorial do Hospital Sírio Libanês, especialista em nutrição em doenças crônico degenerativas

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